Neto de Raúl Castro defende diálogo de Cuba com os EUA, mas ignora presos políticos na ilha
A Revolução Cubana talvez tenha chegado a um de seus momentos mais paradoxais. Depois de mais de seis décadas prometendo acabar com privilégios, oligarquias e dinastias familiares, o regime resolveu apresentar ao mundo um novo Castro. Não é Fidel, obviamente (1926-2016). Nem Raúl (hoje aposentado).
A Revolução Cubana, que durante décadas se afirmou como um projeto de ruptura com privilégios, oligarquias e dinastias familiares, volta a ser atravessada por uma ironia histórica: o regime apresenta ao mundo um novo Castro, desta vez pertencente à geração seguinte. Trata-se do neto de Raúl Castro, que surge publicamente a defender a abertura de um diálogo entre Cuba e os Estados Unidos, num momento em que a ilha continua a viver sob forte vigilância política.
A posição do descendente de Raúl Castro ganha relevo não apenas pelo peso do apelido, mas também pelo contraste com a realidade interna cubana. Enquanto apela a entendimentos com Washington, a questão dos presos políticos permanece fora do centro do discurso, sem que o tema seja enfrentado com a mesma visibilidade ou urgência. Esse silêncio é particularmente sensível numa altura em que a relação entre Havana e os Estados Unidos continua a ser um dos eixos mais delicados da política cubana.
O aparecimento de uma nova figura da família Castro no espaço público volta, assim, a expor as contradições de um regime que se construiu em nome da igualdade e contra a hereditariedade do poder. O facto de um neto de Raúl defender uma aproximação externa, sem tocar numa das questões mais controversas da ilha, ajuda a perceber como a narrativa oficial continua a ser cuidadosamente controlada.
Esta notícia é relevante porque mostra que, em Cuba, as mudanças geracionais não significam necessariamente mudança política. O nome Castro continua a ter peso simbólico, mas também evidencia os limites de uma abertura que, ao mesmo tempo que procura diálogo internacional, evita enfrentar de forma transparente as tensões internas mais sensíveis.