Fim da Moratória da Soja pode ampliar destruição da Amazônia
Um artigo publicado na revista Science alerta que o fim da Moratória da Soja pode resultar no desmatamento adicional de 1,4 milhão de hectares na Amazônia nos próximos dez anos. O número é 14% maior do que as taxas históricas de desmatamento. A perda florestal produziria cerca de 745 milhões de tone
A Moratória da Soja é um dos acordos ambientais mais conhecidos do Brasil e foi criada em 2006 para impedir a compra de soja produzida em áreas desmatadas na Amazónia após essa data. Na prática, juntou grandes traders internacionais, indústria e organizações ambientais numa espécie de travão ao avanço da cultura da soja sobre a floresta, funcionando como um dos principais instrumentos de contenção da expansão agropecuária na região. Agora, um estudo publicado na revista Science volta a colocar o tema no centro do debate ao alertar que o fim desse compromisso pode abrir espaço para uma nova vaga de desflorestação.
Segundo a investigação, a extinção da Moratória da Soja poderá levar ao desmatamento adicional de 1,4 milhão de hectares na Amazónia ao longo da próxima década, um valor superior às taxas históricas observadas. O impacto não seria apenas territorial: a perda de cobertura florestal implicaria também emissões massivas de gases com efeito de estufa, num momento em que o Brasil procura reforçar a sua credibilidade ambiental no combate às alterações climáticas e na preparação para a COP30, que o país vai acolher em Belém, no coração da Amazónia.
O estudo surge num contexto de forte pressão sobre o modelo de ocupação da Amazónia, onde a expansão da soja e da pecuária continua a ser um dos motores centrais do desmatamento. A cultura da soja tornou-se estratégica para o agronegócio brasileiro, sobretudo devido à procura internacional por rações animais, óleo vegetal e biocombustíveis. Mas, ao mesmo tempo, é um sector frequentemente associado a conflitos fundiários, perda de biodiversidade e avanço sobre territórios frágeis. A Moratória da Soja foi precisamente desenhada para separar a produção agrícola da destruição da floresta, pressionando a cadeia comercial a não financiar áreas recentemente desflorestadas.
Além do impacto ecológico, a questão tem também uma dimensão económica e política. O eventual fim da moratória é visto por organizações ambientalistas como um retrocesso que pode fragilizar a imagem do Brasil nos mercados internacionais, sobretudo junto de países e empresas que exigem cadeias de abastecimento livres de desflorestação. Para os defensores do acordo, manter este instrumento é essencial para conciliar produção agrícola e conservação da floresta. Para os seus críticos, trata-se de uma limitação excessiva à expansão do agronegócio. O alerta agora lançado pela Science reforça, porém, que a discussão vai muito além de um simples mecanismo comercial: está em causa o futuro da maior floresta tropical do planeta e o peso que a soja continuará a ter na sua destruição ou preservação.